Estudo desenvolvido por Bronac Ferran e Felipe Fonseca para o Ministério da Cultura dos Países Baixos sobre novas mídias e cultura digital no Brasil. Esta página vai hospedar a tradução do mapeamento para português brasileiro (a ser finalizada na metade de julho).
Para quem tem muita pressa, a versão parcial vai abaixo. Aviso que ela não está revisada, e deve conter algumas distorções, provavelmente no caso da tradução para o português de citações que já haviam sido traduzidas para inglês.
O original em inglês está publicado no site da Virtueel Platform.
---

Cartografia de Novas Mídias e Cultura Digital no Brasil

Escrito por Bronac Ferran e Felipe Fonseca.

Prelúdio: 'Sobre cartografia'
 

"Mapas não representam apenas as fronteiras de um país com os vizinhos, mas também fronteiras invisíveis, geopolíticas, culturais e sociais que existem dentro do país, entre países ou em qualquer comunidade. Mapas no sentido estrito fazem relações simbólicas entre os elementos de um espaço, mas também têm sido ferramentas para localizar e exibir links e hipóteses, e não apenas aquelas relativas ao espaço topográfico. Definir e mapear espaços abertos precisaria da participação na recriação dos mapas existentes, em sobrepor diferentes mapas a fim de mostrar relacionamentos não tão óbvios. Mapear, o processo de fazer um mapa ou sobrepor duas áreas diferentes, e navegar, explorar um espaço (um trecho de uma rua) são dois modos complementares das "artes da ação". (Michel de Certeau) [1]

 
1. Introdução
Localizar qualquer forma artística dentro de uma fronteira geográfica ou nacional é uma tarefa desafiadora. No caso de arte em novas mídias e cultura digital, é particularmente paradoxal definir ou confinar artistas ou organizações artísticas que podem trabalhar em rede ou virtualmente pela localização física. Contudo, paradoxos são muitas vezes coisas saudáveis, e, certamente, no caso do Brasil, localização e contexto (bem como a recente história política) têm desempenhado um papel fundamental para determinar as especificidades do que iremos chamar cultura digital.

Como poderíamos, então, caracterizar essa prática no Brasil, a fim de começar a mapeá-la? Quais são as principais características que vamos encontrar que podem ajudar a diferenciar este trabalho de outras formas de expressão tanto no Brasil quanto em qualquer outro lugar?

Em "://brasil - L'art des nouveaux media en Bresil, dans un approche historique et actuelle: de 'art  concret e neo-concret a internet" (Paris: Festival @rt Outsiders de 2005), [2] o Editor Executivo da  série anomalie digital_arts Emanuel Quinz comenta sobre:

"... Um fio comum, a questão de uma 'especificidade brasileira', de uma constante na pluralidade das abordagens, de uma forma particular de se apropriar dos meios de comunicação social e transformar as suas estruturas e as estratégias em material artístico. Esta especificidade pode ser identificada na 'mistura de sensualidade tropical e rigor Construtivista' de que fala Eduardo Kac[3] ou, o 'impulso crítico' de que fala Arlindo Machado[4], um resultado do confronto entre as práticas artísticas e um contexto social extremamente difícil, ou mesmo na atitude 'antropofágica' mencionada por Christine Mello[5], uma espécie de estratégia de reciclagem cultural ".

2. Linhas Principais
Quinz perceptivamente observa que "uma poética da montagem" conecta o trabalho de muitos artistas no Brasil atualmente. A publicação tem ensaios de importantes pesquisadores, curadores e artistas brasileiros, refletindo sobre como a evolução da arte utilizando tecnologias de mídia no Brasil ao longo das últimas décadas tem demonstrado um desejo coerentes de explorar o potencial de comunicação à distância por qualquer novo dispositivo que se tenha tornado disponível.

Ouvimos como o Manifesto Anthropofago[6] de Andrade em 1928 declarou influentemente a importância do anonimato na arte e afirmou uma práxis específica brasileira de canibalismo em que o colonizado aceita e abraça (come) os seus colonizadores e assim se apropria de seus espíritos. Isto aplica-se às culturas do remix e do hacking sobre as quais nós ouvimos muito.

Observamos que a Exposição de Televisão realizada em 1939 no Rio de Janeiro trazia cartazes perguntando: você gostaria de fazer uma chamada por videotelefone? Profissionais líderes no Brasil engajaram-se de maneira significante e frequentemente pioneira com o potencial das mídias eletrônicas e logo digitais para conectar o país tanto internacionalmente quanto nacionalmente, para abrir formas novas e acessíveis de comunicação (especialmente durante a ditadura militar) e para criar oportunidades de envolver o público no processo de criar obras de arte. Essas práticas podem ser vistas como tendo contribuído com os processos de democratização e resistência.

Também relevante para a noção de escala e distância, assim como a pluralidade de influências culturais no país, percebemos um distintivo e fascinante desejo por plenitude emergindo no trabalho pioneiro de artistas brasileiros como Eduardo Kac, Wagner Garia e Fernando Catta-Preta, que trabalhavam de formas altamente inovadoras com tecnologias como a holografia (onde a parte revela o todo).

Uma orientação para a inclusão e a ruptura dos muros que separavam as obras de arte do público foram introduzidas por Lygia Clark, Octavia Domasci e Hélio Oiticica - cujos processos participativos e socialmente engajados foram desenvolvidos muito antes das explorações ditas interativas no início do presente século.

Considerando esta linhagem, hoje pode-se facilmente reconhecer a existência de linhas-mestras de desenvolvimento - onde as pessoas dão forma às tecnologias que usam para apropriar-se delas e transformar suas práticas em torno das possibilidades das tecnologias - que continuaram a evoluir e emergir no sécuo 21.

Quinz salienta:

"Estas linhas são sutis mas profundas, e estão interligadas com outras linhas consideradas significativas, tais como aquelas que ligam as práticas tecnológicas contemporâneas a desenvolvimentos na arte cinética, à experimentação com sistemas de telecomunicações ou ao vídeo. A paisagem assume uma verdadeira complexidade através da exploração dessas linhas sutis, que não repousam sobre critérios técnicos ou1 disciplinares, mas são bastante focadas na transformação de uma idéia ou modelo estético".

 
Poderíamos acrescentar a isso o engajamento a longo prazo de artistas brasileiros com o concretismo nas artes visuais e na poesia, e com a semântica, que persiste hoje em muitos dos trabalhos e artistas apresentados, por exemplo, no FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) que acontece anualmente e tem evoluído de maneiras interessantes, que são descritas abaixo.
 
Embora só possamos mencionar brevemente aqui, o papel de Abraham Palatnik e Waldemar Cordeiro é muito importante. Em ://brasil, Arlindo Machado, grande historiador da mídia no país, traça uma linha entre os experimentos precoces em arte cinética de Palatnik nos anos 50 até a vídeo arte nos 70 e a ascenção do que ele chama de arte de telecomunicações nos anos 80 em diversos campos "da arte por computador, música por computador, poesia intersemiótica e a relação entre arte e ciência, expandindo o campo de experimentação de maneira a incluir praticamente todo o leque de poéticas tecnológicas." Machado também cita a importante figura de Villem Flusser, o filósofo da mídia e da ciência tcheco que viveu no Brasil por 32 anos. Eduardo Kac, em Cordeiro, menciona que antes de sua morte precoce em 1973, ele "produziu algumas das obras mais importantes das primeiras fases da arte por computador da metade ao fim dos anos sessenta quando sintetizou sua preocupação de toda uma vida com formas radicalmente inovadoras e as dimensões sociais e políticas da arte". O ensaio de Kac sobre Cordeiro, inicialmente publicado no Leonardo Journal e republicado no catálogo ://brasil, continua: "Parece que o artista, respondendo ao impacto da mídia de massa e às questões econômicas e filosóficas que elas colocavam, levantou novos desafios estéticos na criação de espaços públicos, para ser vivenciado pelas massas, em vez de na elaboração de objetos a ser vistos por indivíduos isolados". Esse impulso ainda é muito evidente no trabalho de muitos artistas hoje em dia. Como um paisagista (tendo produzido mais de 100 obras nessa área) além de artista seminal, Cordeiro em nossa opinião adiantou-se ona engajamento atual de muitos artistas de mídia brasileiros com questões de ecologia e meio-ambiente.
3. Esferas pública e privada
 
Da mesma forma, existe um contexto mais amplo em jogo no Brasil, ligado à propriedade da mídia e dos sistmas de comunicação, que teve um impacto significante na natureza das práticas de cultura digital.
A Rede Globo - empresa de mídia dominante no Brasil, que produz entre outra coisas novelas que alcançam milhões de falantes de portuguẽs em todo o mundo - foi criada em 1965, tendo relações próximas com a elite política de então. Seus recursos hoje incluem um canal de televisão, as duas mais importantes empresas de TV por assinatura no país, dúzias de jornais importantes e centenas de estações de rádio, além de ser um ator importante em relação à TV digital. Esta predominância é um fator de enorme influência, tendo determinado a agenda de produção e consumo de mídia de massa em todo o país por muitas décadas. Considerando a função de muitas atividades heterogêneas, locais e de pequena escala - exploração de recursos de vídeo e mídia digital na expressão criativa - observamos o desencadeamento de uma diversidade e heterogeneidade que de maneira limitada mas cumulativa pode ser vista como uma usina opositora de expressão cultural alternativa e independente. Um forte desejo de contestar a dominação influenciando a produçãoe a distribuição  audiovisual independente foi uma força motriz por trás da formação e impacto do festival Videobrasil em 1983 - mais abaixo - e manteve-se essencial para muitos projetos e iniciativas posteriores em que há uma ênfase na produção e expressão fazendo uso de mídias livres. Um influente documentário do Canal 4 (Reino Unido) feito em 1993 e ainda não exibido no Brasil é "Muito além do Cidadão Kane", que lidava com questõoes ligadas à Rede Globo, que a corporação tentou até evitar que se exibisse no Reino Unido. Se alguém desenhar um mapa do espaço psicológico, ou uma linha, entre a mídia mainstream e a mídia alternativa no Brasil, este programa seria um ponto-chave de referência.
A coexistência complexa de estruturas de grande escala, muitas vezes com financiamento privado, influentes politicamente e de tendências monopolistas com iniciativas de pequena escla e altamente divergentes que procuram definir um domínio público é necessariamente uma parte importante da cultura de mídias digitais neste país vasto e fascinante. É também interessante observar que esta tensão continuada começou nos anos sessentas - uma década que se mantém influente em muitas áreas de nosso mapa.
3.1. Do Conteúdo ao Intercâmbio
O Brasil tem três vezes a população do Reino Unido ou da França, com quase 200 milhões de pessoas, e é o quinto maior país do mundo. O litoral tem mais de 8000km. Suas culturas heterogêneas, combinadas com a homogeneidade linguística, contribui com um conjunto específico de desafios para a elaboração de políticas culturas.
Gilberto Gil, um dos cantores mais famosos do mundo, foi Ministro da Cultura no governo Lula de 2003 a 2008. Gil apareceu pela primeira vez nos anos sessentas, como um dos principais integrantes da Tropicália, que veio a simbolizar resistência política e cultural à ditadura militar, e que era ao mesmo tempo muito contemporânea (os alucinados sessentas) ao mesmo tempo que baseou-se e remixou a tradição com o que então eram os novos meios (um jeito tipicamente brasileiro). Declarações dadas por Gil quando Ministro (algumas escritas por seu velho amigo, Claudio Prado) frequentemente retomam as mensagens da antropofagia e da tropicália para o contexto social e as tecnologias do começo do século 21.
Falando para executivos do Google no evento Zeitgeist no início de 2008, Gil disse "É possível ter outra forma de consoância, de certa forma radical, eu até diria, uma "simbiose" do Estado com a sociedade civil." Ele buscava posicionar o Brasil como um "laboratório do futuro", onde desde 2003 o Orkut - rede social do Google - saiu de um projeto como um clube altamente elitista para ser usado por pessoas em todos os níveis da sociedade para falar com amigos e família em todo o país. Isso levou a controvérsias significativas sobre a responsabilidade por transações ilegais através de mídias sociais. Gil pedia uma maneira nova de pensar:
"As tecnologias do século 21 representam um grande desafio para a regulamentação. A revolução gerada pela convergência de tecnologias digitais nos obriga a reinventar a maneira com que fazemos quase tudo. Eu acredito que qualquer pessoa com responsabilidade pública deveria ver a distribuição digital de propriedade intelectual como a maneira mais direta e poderosa de democratizar o conhecimento na história da humanidade. Mas em vez disso nós vemos todas as instituições formais insistindo em simplesmente chamar a distribuição digital de 'Pirataria'".
De alguma forma estar conectado e em contato é considerado mais importante do que o conteúdo.
A tendência natural da cultura brasileira de absorver e mixar/remixar processos - particularmente por meio do diálogo e da comunicação em rede - significava que este sistema [Orkut] foi levado em direções que o Google inicialmente não podia imaginar. Inovação social é uma linha importante no mapa emergente da cultura digital no Brasil.
3.2 Código Aberto e Hardware Livre
 
O apoio radical de Gil também estava muito ligado a um programa específico chamado Cultura Digital que seu ministério apoiou entre 2003 e 2007, descrito em mais detalhes abaixo. A iniciativa funcionou como um catalisador de alto nível chamando a atenção internacional para movimentos sociais e culturais dentro do país, entre eles a aliança de ativistas de software livre e de código aberto e hackers com um ministro e sua equipe que estavam engajados não apenas com a retórica mas também com a realidade da abertura de recursos de mídias digitais para jovens do Brasil desenvolverem protagonismo, independência e autonomia.

"A transformação começa quando crianças nas comunidades reconhecem os dispositivos de tecnologias digitais como ferramentas de performance cultural, como fonte de referências diversas, como plataformas para criação estética e ressimbolização de suas experiências. Em outras palavras, a transformação social inicia quando elas entendem o ciberespaço como um território delas próprias, quando entendem o upload antes mesmo de ouvir sobre download, quando começam a publicar. Este é o momento exato em que o empoderamento acontece. Pura magia!" [13].

 
Como fica claro no exposto, este programa baseou-se em pensamento conceitual e práticas semeadas ao longo dos anos. Também foi um exemplo raro no mundo de uma aliança (mesmo que temporária) entre políticos e ativistas do terceiro setor, e leva adiante a agenda e as táticas P2P (da prática à política pública) que se espalhou no fim dos anos 90 na Finlândia, nos Países Baixos, no Reino Unido e em outros lugares. [14]
Essas tendências no Brasil, focadas na reciclagem de tecnologias, na perspectiva do hardware e software livres e abertos, e perspectivas compartilhadas e coletivas em relação à propriedade, também foram desenvolvidas como resposta aos desafios sociais e educacionais neste país altamente complexo, com sua disparidade social, sua muitas vezes ignorada história de inovação em indústrias como a aeroespacial, a biotecnologia e a pesquisa espacial, e seu mais recentemente reconhecido potencial para tornar-se uma economia do conhecimento líder no mundo - ver Brazil: The Natural Knowledge Economy' Julho 2008 [15].

4. As diferenças internas

 
Esse relatório do influente thinktank britânico Demos analisa a concentração da pesquisa e desenvolvimento em ciência e tecnologia no Brasil em paralelo às tentativas de descentralizar e difundir capital intelectual emergente para centros alám das concentrações dominantes do Estado de São Paulo, além de Curitiba, Florianópolis e Belo Horizonte. Entretanto, é de notar que o relatório não faz referência ao potencial de conexões entre centros de inovação em ciência e tecnologia e aqueles em artes e ciências humanas - que seria uma recomendação de políticas públicas de se esperar em análises de economias baseadas no conhecimento em outros lugares, como por exemplo o Reino Unido ou a Austrália.
O relatório cita José Cassiolate, do Instituto de Economia da UFRJ, que diz [16]:
 

"Não se pode falar sobre o Brasil como um sistema de inovação. É necessário entender as diferenças internas."

 
Isto se encaixa muito bem com nosso exercício de mapeamento cultural. O mapa do desenvolvimento da pesquisa em ciência e tecnologia mostra uma grande concentração de atividades em centros ainda principalmente no sudeste apesar dos esforços através de incentivos significativos para distribuir e descentralizar estes pontos de foco. Nisso há paralelos com a infra-estrutura cultural no Brasil que, com algumas exceções, é urbana.
Em um levantamento informal sobre artistas, organizações e iniciativas relevantes, descobrimos que a maior parte dos respondentes optou por pessoas, organizações e iniciativas em áreas urbanas. Isso espelha nossa percepção de onde se situa a massa crítica, com a exceção de algumas redes retratadas abaixo que são locais e translocais por natureza. A massa crítica em áreas culturais frequentemente emerge através da proximidade e comunidades de interesse, e no Brasil vemos isso emergir, como é comum, por uma combinação de links entre centros de excelência acadêmicos, redes e espaços. Além da iniciativa específica Cultura Digital, que mais do que criar capitalizou um conjunto de agrupamentos sociais entre indivíduos com conhecimento em programação combinado com um desejo de transformação social, parece ter havido poucos incentivos em políticas públicas ou medidas instrumentais que tenham procurado o desenvolvimento ativo de cultura digital em áreas particulares, diferentemente de grande parte das políticas culturais no Reino Unido e em outros lugares da Europa. Apesar de haver paralelos interessantes entre os desenvolvimentos de P2P no fim dos anos 90 na Europa e o programa Cultura Digital, as diferenças são importantes. Muitos praticantes na Europa procuravam influenciar a formulação de políticas para criar centros subsidiados e agenciamento em infra-estrutura, enquanto muitos dos envolvidos nas práticas e políticas brasileiras buscam efeitos descentralizados.
O intensivo trabalho em nível trans-local que éuma característica de muitos projetos na área de cultura digital no Brasil tem grande relevância em questões de sustentabilidade e do contexto ambiental dentro do qual este relatório precisa ser situado.

5. Crescimento no acesso aos meios de comunicação

O relatório Demos cita números de 2005 do Banco Mundial que mostram que a penetração de telefones celulares e da internet haviam crescido respectivamente 46,2% e 15,6% no Brasil. O uso de telefones celulares desde então continua crescendo, o que tem alimentado ainda mais a capacidade de conectar-se socialmente usando sistemas de telecomunicações. Números recentes mostram que o uso da internet cresceu 60% em 2008.
O potencial desse crescimento no acesso a meios de comunicação está sendo explorado em atividades culturais formais. Festivais como o Mobilefest em São Paulo, e Arte.Mov em Belo Horizonte engajam-se com mídia móvel e locativa. Uma competição futura executada pelo CTS no Rio de Janeiro com o Sesc vai encorajar o público a subir suas próprias versões de uma música famosa, usando ferramentas contemporâneas de mídia para remixar o passado e o presente. Governos estaduais como o de Sergipe estão desenvolvendo projetos de infra-estrutura - com computadores de baixo custo para uso educacional e a expansão da oferta de banda larga - ligados ao desenvolvimento de estratégias de indústrias criativas - ver http://thehumanproject.org.br - o que, deseja-se, abrirá oportunidades de trabalho, aumentar a qualidade de vida e muito mais.
Ao mesmo tempo tecnologias digitais e vários processos ligados à internet estão sendo usados por praticantes criativos fora e além de instituições como centros de mídia ou festivais de mídia digital - com trabalhos que podem tornar-se visíveis de diversas formas, ligados ao graffiti, arte urbana, festivais de hip hop, festivais de trance e música eletrônica e manifestações de cultura popular de vários tipos. O Brasil tem muitos eventos - festas, celebrações, projetos ligados ao carnaval - que apropriam-se e usam novas mídias como parte de um conjunto de estratégias mais amplas de promoção. Tendências similares como o download de músicas em celulares pré-pagos estão crescendo bastante no Brasil. Quando se trata de analisar o impacto das políticas culturais (ou potencial de investimento em indústrias criativas), deve-se reconhecer a existência de muitas infra-estruturas paralelas que hoje estão mais fortes do que nunca como resultado das mudanças possibilitadas pelas tecnologias digitais e novas formas de distribuição.
5.1 Produção na prática
Uma das maiores conquistas da iniciativa Cultura Digital e outras redes associadas é a consideração que elas são a processos de produção na prática - que possibilitam que as pessoas saibam o suficiente sobre recursos tecnológicos para desmontá-los e transform-alos em outra coisa, e fazê-los funcionar como ferramentas para a expressão pessoal e coletiva. Este tipo de libertação - que pode fornecer as bases para novas carreiras e o desenvolvimento profissional de pessoas vivendo em todo tipo de circunstância - é um objetivo importante que formou a raiz do programa Cultura Digital e que, em nossa experiência, não foi replicado desta forma em nenhum outro lugar do mundo.
As lições aprendidas no período de testes e experimentação ainda estão sendo absorvidas. Grupos como o Des).(Centro estão engajados de maneira reflexiva com questões que emergiram, engajando-se em mais pesquisa e preparando publicações que podem disseminar as bases conceituais além das atividades em si. Quando se trata de produzir um mapa útil (que possa refletir e apontar o caminho) através de atividades de cultura digital no Brasil não há dúvida que este experimento em particular é um que requer e merece investigação. Seria útil olhar em um período de tempo - talvez cinco ou dez anos no futuro - para os caminhos de desenvolvimento tomados por indivíduos e grupos envolvidos nestas iniciativas catalisadoras apoiadas pelo Ministério da Cultura. Entendemos que isso enriqueceria a compreensão do impacto das intervenções em políticas públicas de novas mídias dentro e fora do Brasil.

Mídia Tática Brasil 2003
Um evento fundamental para o desenvolvimento do programa Cultura Digital, e outras atividades associadas descritas abaixo, foi o festival Mídia Tática Brasil (MTB) que aconteceu em março de 2003 e agregou uma nova classe de teóricos e praticantes de ativismo em novas mídias. Ele foi realizado no coração da Avenida Paulista, na Casa das Rosas, o mesmo lugar onde Eduardo Kac havia implantado em seu tornozelo um microchip de identificação de nove dígitos (e se registrado em um bando de dados norte-americano) como parte de um evento de arte treze anos antes. A Avenida Paulista é o epicentro econômico de São Paulo e por extensão do Brasil. Comenta-se que mais de 30% do fluxo financeiro da economia brasileira passa pela paulista todos os dias.
Este evento contou com dezenas de grupos, centenas de participantes e alguns milhares de visitantes. As conversas que levaram ao festival foram interessantemente semeadas na edição de 2002 do Emoção Art.ficial, no Itaú Cultural (ver mais abaixo) e trouxeram para o Brasil a base conceitual da mídia tática, influenciada pelos festivas Next5Minutoes em Amsterdam que haviam sido fundamentais na definição de um espaço dentro do qual a cultura das novas mídias poderia ser criticado.
A sociedade Waag de Amsterdam enviou um observador para o festival, que foi organizado em rede, com o uso de uma lista de discussão por email, wikis e websites colaborativos, e envolvendo redes de ativismo como Submídia, MetaReciclagem, Re:Combo, alguns braços do movimento do software livre brasileiro (especialmente aqueles ligados ao projeto dos Telecentros de São Paulo).
Um dos destaques do festival foi a presença de Gilberto Gil, recém-empossado Ministro da Cultura, com um forte apoio conceitual de John Perry Barlow (da Electronic Frontier Foundation nos EUA, e letrista do Grateful Dead). Richard Barbrook, da Universidade de Westminster (http://futurosimaginarios.midiatatica.info/), apresentou uma ideologia contra-californiana. O festival também aconteceu no Sesc da Avenida Paulista e na Fundação Japão, e levou diretamente à criação do programa Cultura Digital nos anos seguintes.
---
Ainda falta traduzir:
6.1. Bricolabs

7. Uma ecologia em rede

Cultura Digital
CTS
Re:Combo
Mídia Independente
MetaReciclagem
Mídia Tática
Findetático
Submídia
Articuladores
Digitofagia
Des).(Centro
Submidialogia
Overmundo
Movimento do Software Livre
Estúdio ivre
Fórum Social Mundial
Campus Party
Weblab

8. Espaços, Festivais e Centros de Atividade

FILE
Mobilefest
MIS
Videobrasil
Instituto Sergio Motta / Prêmio Sergio Motta
Arte.Mov
SESC
Itaú Cultural
Paço das Artes

9. Fontes de financiamento

Lei Rouanet
Oi Futuro
Petrobras

10. Conexões e links internacionais

11. Conclusões e recomendações